Para além da clássica e dócil imagem do chá com madeleines, na literatura de Marcel Proust pode-se falar em uma culinária que é indócil. Como essa culinária pode ser definida e delineada? Realizar o estudo desta cozinha que foge aos padrões proustianos de docilidade, simetria e distinção social, a partir do texto literário de Em busca do tempo perdido, foi o objetivo desta obrä. Delineia-se, assim, a ideia de uma culinária indócil, que pode ser descrita por cinco características: tem a cozinha como lugar de potência, compreende a feira como espaço que instaura uma poética dos alimentos, produz um discurso sobre a escassez da guerra, apresenta o obeso como maligno ao demarcar a partir dele um regime de resistência e, por fim, é alcoólica e desvenda heterotopias. Na experimentação proposta na obra pela autora, de se pensar a alimentação pela via da literatura, habita uma reflexão sobre a valorização das ciências humanas na formação em saúde, sobretudo na Nutrição, ciência ainda marcada de forma hegemônica pelo paradigma biológico, seu grande logos.
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